quinta-feira, 1 de abril de 2010

“Eu vos dei o exemplo, para que façais o mesmo”


Quando alguém se propõe estudar a Eucaristia é surpreendido pelo fato que João, o discipulado amado de Jesus, ao narrar a instituição da Eucaristia não dá destaque ao momento da consagração do pão e do vinho como Corpo e Sangue do Senhor. Aquilo que os demais evangelistas fazem, e que Paulo também repete, como na 2ª leitura desta celebração, não acontece com João. João particulariza o gesto do lava-pés e, por isso, dá à Eucaristia uma valência serviçal. João diz que, no meio da ceia, Jesus levanta-se para servir e, deste modo, não reduz a vida cristã a participar da Missa, mas a estende como celebração que continua na vida, através do serviço.

A primeira surpresa é a coragem de deixar a mesa, deixar o local da convivência, onde se é servido, e assumir o posto de servente. A reação de Pedro representa a reação dos demais discípulos e, Jesus se aproveita dessa admiração para, ensinar: “vocês viram o que eu fiz... eu vos dei o exemplo”. Nesta perspectiva, a Eucaristia não é estática, mas dinâmica e sua dinamicidade se manifesta pelo serviço de quem deixa da mesa, tira as vestes de festa — tal como fez Jesus — e coloca a mão na massa, como dizemos; assume o serviço e se faz servidor. Isso vale para todos que participam da celebração eucarística. Celebrar a Eucaristia sem ser motivado a servir é descaracterizar uma conseqüência primária da Eucaristia.

Como todo serviço tem uma utilidade, Jesus diz que a utilidade do serviço eucarístico consiste em oferecer a vida divina ao mundo (cf. Jo 6,33). A teologia atual entende que o oferecimento da vida ao mundo deve ser proposta lá onde a vida está declinando, onde a vida está enfraquecida, onde a vida deixou de ser vida e que se recuperará somente com a qualidade da vida divina. Tornou-se senso comum pensar que tal qualidade da vida divina seja destinada unicamente a excluídos, aos pobres, dando a entender que o dinheiro e o bem-estar social sejam responsáveis pela boa qualidade de vida. Refletimos na Campanha da Fraternidade 2010 que isso não corresponde a realidade. Disto se intui que este serviço é para todos e, quem sabe, em dose maior para aqueles que vivem na ilusão de uma “vida boa” desde que favorecidos pelo dinheiro e à custas de fantasias que compensam ou ajudam a suportar a realidade do vazio.

O gesto de lavar os pés dos discípulos, por fim, tem outra consideração importante para compreender a dinâmica da Eucaristia. Quem se coloca à mesa, num banquete, é servido. Servem-lhe o alimento, a bebida e, num banquete, se é servido com a amizade do anfitrião. Jesus, ao se levantar no meio da refeição para lavar os pés dos discípulos, quebra este protocolo e inverte a dinâmica do banquete eucarístico: em vez de ser servido, a Eucaristia dispõe seus participantes ao serviço no amor fraterno. Isto se resume em dois mandatos: “eu vos dei o exemplo” (Evangelho) e, “eu vos dou um novo mandamento: que vos ameis” (antífona da aclamação ao Evangelho).

(Francisco Régis)

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