terça-feira, 25 de março de 2014

Lava pés - sugestão de encontro

Lendo o livro: MISTAGOGIA, DO VISÍVEL AO INVISÍVEL, da Paulinas, livro esse que indico à todos os catequistas, achei riquíssimo a explicação e tb a dica de encontro sobre o LAVA-PÉS. Já fiz essa experiência com algumas turmas e foram momentos marcantes, como mostra nesse vídeo...



1º passo: sentido cotidiano 
Até hoje, lavar os pés de uma pessoa é sinal de serviço, de humildade, de caridade. Antigamente, na zona rural era mais comum colocar água numa bacia e lavar os pés ou partes do corpo. 

Em João 13,1-17, Jesus realiza um gesto impressionante, certamente inusitado em nosso mundo de hoje, porém com uma intenção expressiva às vésperas da Páscoa. Durante uma ceia, Jesus levantou-se, depôs o manto e lavou os pés dos apóstolos.

2º passo: sentido bíblico 
No tempo de Jesus, esse gesto estava muito presente na sociedade, visto que se caminhava muito a pé, e o primeiro gesto de acolhida numa casa era oferecer água para lavar os pés do peregrino. Lavar os pés de outro era, entre os judeus (e orientais, em geral), um sinal de excelente hospitalidade. Ato mais significativo em países muito secos, com caminhos cheios de poeira. Assim, Abraão ofereceu água para lavar os pés dos três personagens que lhe visitaram em Mambré (Gn 18,4). Também a mulher pecadora, quando viu Jesus à mesa na casa do fariseu, trouxe um vaso cheio de perfume, postou-se aos pés de Jesus e, chorando, lavou-os com suas lágrimas, enxugou-os com os seus cabelos, beijou-os e os ungiu com o perfume (Lc 7,36-50). 

“Muitas vezes a delicadeza chegava ao ponto de lavar pessoalmente os pés do peregrino, ou então os discípulos os pés do mestre, a esposa os do esposo, os filhos os do pai [...]. Sem chegar a ser um ofício exclusivo de escravos, supunha sempre uma humilde submissão por parte de quem realizava esse gesto.”[1]

O estranho é ver Jesus lavando os pés. Dessa forma, o gesto se reveste do valor da humildade, do serviço, do despojamento. Porque o comum era que um serviçal o realizasse. 

Pedro não entende o gesto de Jesus. Recusa-se a ver no Mestre a imagem do Servo, preconizado no Livro de Isaías. “Tu não me lavarás os pés nunca!” (v. 8). Antes, quando Jesus anunciou a sua paixão, ele já tinha recusado a aceitar os sofrimentos de Cristo na cruz. Era-lhe muito mais própria a mentalidade de um Messias forte, poderoso e capaz de libertar o povo de toda opressão. Novamente, Jesus revela o seu messianismo como serviço que se cumprirá plenamente na sua morte na cruz. 

Toda a maneira de viver de Jesus mostra que a felicidade do ser humano não consiste em grandeza e poderio, muito pelo contrário, as bem-aventuranças que proclamou e a simplicidade de sua vida mostram um caminho bem diferente, mesmo quando os discípulos disputavam sobre quem seria o maior dentre eles. Jesus disse com clareza: “entre vós, não deve ser assim. Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo, e o que manda, como quem está servindo. Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,26.27b). 

Somente é possível entender o Lava-pés no seguimento de Jesus considerando as atitudes de Jesus em favor dos mais fracos da sociedade, sem nunca afirmar-se com o poder. Teve essa oportunidade quando multiplicou pães e, por isso, queriam fazê-lo rei. Mas como entender um Messias sucumbido pela violência do sinédrio e da ocupação romana? 


3º passo: sentido litúrgico 

O tríduo pascal no qual se comemora a paixão, morte e ressurreição do Senhor tem início na véspera da Sexta-feira Santa. A Cruz, que será o centro da Sexta-feira Santa, tem um prólogo na Quinta-feira com um duplo gesto: a lavação dos pés e a Eucaristia. 

O evangelho de João substitui o relato da ceia pela cena do lava-pés. O gesto de lavar os pés, o sacrifício da cruz e o sacramento memorial desse sacrifício – a Eucaristia – têm em comum o serviço humilde de amor e entrega pela humanidade. 

“A prova autêntica de humildade e serviço vai ser a morte na Cruz. Entretanto, os gestos da Última Ceia – o lava-pés e, sobretudo, a doação do Pão e do Vinho – têm por fim antecipar o mistério da Páscoa. Pôr-se a lavar os pés é mais que uma lição dramatizada de caridade fraterna; é um gesto profético, uma ‘parábola sacramental’ sobre a maneira como, na Cruz, vai ser despojado e irá perder até a própria vida pelos demais. Agora se despoja do manto. E, então, até da vida.”[2]

A celebração do lava-pés no pequeno grupo de catequese tem como finalidade o aprofundamento experiencial do sentido do rito que ganhará todas as luzes na grande celebração comunitária em seu tempo próprio: a Quinta-feira Santa. Inclusive, pode-se pedir que pais lavem os pés dos filhos e vice-versa, como também um catequizando lave os pés do outro, colocando em prática o mandato de Jesus. 

4º passo: compromisso cristão 

O serviço de dar a vida, o serviço de entregar-se a ponto de perder a própria vida para que todos possam viver uma vida plena é a lição mais evidente de Jesus nesta cena descrita por João. Não basta repartir o pão e o vinho transformados no corpo e no sangue vivos de Jesus. É preciso doar-se servindo. É o serviço de dar a vida que transforma o mundo, a sociedade, as pessoas, cada um de nós. 

Jesus, o Filho de Deus encarnado, entende sua vida e sua missão como serviço de amor à humanidade. E a entrega da sua vida na cruz será o cume dessa entrega. Isto é Eucaristia. 

Ele se doa inteiramente. “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós” (Jo 13,14-15). Assim, o Reino de Cristo só pode ser recebido e instaurado com o serviço de amor que os que aceitam seguir Jesus prestam ao mundo. 


Celebração do lava-pés 

Preparar e celebrar o lava-pés com o grupo. Mostrar a ligação entre pão e vinho consagrados (corpo e sangue de Jesus), morte na cruz e serviço aos irmãos, como componentes de uma única realidade salvífica. Conversar antes com o grupo: Por que esse gesto faz parte da celebração da Quinta-feira Santa, quando celebramos a instituição da Eucaristia? Que atitudes Jesus propõe para quem quer ser seu discípulo? 

Preparar toalha de mesa, pão e vinho suficientes para todos partilharem. Arrumar cadeiras, bacia, jarro com água e toalhas para o lava-pés. Todos permanecem de pé e em silêncio. 

Comentarista: No Antigo Testamento, um dos ritos da hospitalidade era o de lavar os pés do hóspede para limpá-lo da poeira do caminho (Gn 18,4). Jesus celebra a ceia com seus apóstolos e antecipa nos sinais do pão e do vinho a profecia de sua morte na cruz. Sua morte é Páscoa, significa a intervenção do Pai, que salva a humanidade pelo amor de seu Filho levado às últimas consequências. O amor gerado na cruz é libertador, oblativo e desinteressado. 

Distantes da mesa, os leitores proclamam o Evangelho: Lc 22,7-13 – Ide fazer os preparativos para comermos a ceia pascal. 

Após a proclamação, duas pessoas se dirigem à mesa com as toalhas, preparam-na e colocam sobre ela o pão e o vinho. Cantar: “Eu quis comer esta ceia agora, pois vou morrer, já chegou minha hora…”, ou outro canto com essa temática. 

Comentarista: O pão e o vinho partilhados serão os sacramentos da vida doada de Jesus como serviço de amor, de solidariedade para a união dos seres humanos. Praticamos o Evangelho somente quando há entrega, doação de nossa parte. Por isso, existe correspondência entre celebrar a Eucaristia, doar a própria vida e servir a comunidade desinteressadamente. Eis aí a lição do lava-pés. 

O leitor 3 e o leitor 4 fazem respectivamente a parte de Pedro e a de Jesus: Jo 13,1-17 – Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 

O comentarista dá sequência ao lava-pés com aqueles que foram previamente orientados e preparados. Enquanto isso, todos entoam um canto apropriado. 

O comentarista convida para a oração do Pai-Nosso. Antes de partir o pão e distribuir o vinho, convidar os participantes para trazerem os alimentos que serão doados. Todos comem o pão e recebem o vinho, enquanto se entoa um canto sobre a caridade. 

[1] ALDAZÁBAL, José. Gestos e símbolos. São Paulo: Loyola, 2005. p. 164. 
[2] Ibid., pp. 164-165.

Fonte: Livro Mistagogia - do visível, ao invisível - Núcleo de Catequese Paulinas, página 88

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